
Tiro um biscoito do pacote. Ele tem o formato de uma bengala, mas isso não me anima nem um pouco. Aliás, tudo tem sido bem desinteressante. Eu voltei a vir às aulas, e as pessoas parecem estar quase genuinamente preocupadas com minha longa ausência. Ma sé algo bem sutil, como se fizessem isso só pra se livrarem da minha imagem pálida de olhos fundos. É claro que há algo errado. E é claro que eu não vou contar à ninguém. Minha amiga coloca a mão no meu pacote e retira um dos meus biscoitos. Entrego a ela toda a embalagem e peço que coma. Afinal, não como mesmo com satisfação. Só mesmo pra me manter viva. Não que eu queira tanto assim viver. É que a morte deve doer, e de dor, já estou farta. Reviro meus olhos, penso em pegar um livro, mas não. Fico pensando se já não se excede o fim das aulas, mas parece que dez minutos se arrastam como um verme. Eu quero ir pra casa e ficar sozinha.
Às vezes tenho medo das pessoas. Tive medo ao descer da condução e pensar na faculdade, em como todos olhariam pra mim com pena, curiosidade ou indiferença. É como se eu fosse algo raro. É difícil que alguém se aproxime. Mas há uma curiosidade mórbida, como se quisessem botar os olhos em minha privacidade e saber das minhas merdas. Porque todos sabem que há algo errado, é só reparar como ando olhando o chão, arrastando os pés e sorrindo de lado. Mas a minha maior satisfação é garantir que nenhum deles saiba das minhas merdas. Por mais que se empenhem em mostrar interesse. - Fiquem longe, sou estranha.
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