Acordei, mas mantive meus olhos fechados. Eu queria continuar ali, adormecida. Até mais tarde, até amanhã, ou até o mês que vem. Movi meu corpo lentamente, e senti uma dor aguda percorrer-me, por todo o corpo. Respirei fundo, mas isso só fez com que minhas costelas doessem, e até por baixo delas. Apertei os olhos, e os abri. Mas que raio de dor é essa? Que raio de claridade e de dia é esse? Estiquei meu braço com dificuldade, pegando a água, colocando um pouco na minha boca, e puxei a cortina, tampando o sol. Mas me mantive deitada. Tentei não me movimentar, tentei respirar bem pouquinho, pra que não doesse. Respirar dói. Ter que acordar e encarar esse dia. Dói igualmente. Com a ponta dos dedos, peguei o celular, disquei. Uma briga. Gritei. Meu peito doía horrivelmente.Rolo meu corpo na cama, abro um livro, e leio, até o último minuto. A essa hora, eu já devia estar mesmo pronta pra sair de casa. Apóio meu cotovelos, e tento me concentrar, como se ele estivesse ali me acordando com palavras doces. Me lembrei que tínhamos brigado há alguns minutos atrás, no telefone. Apoiei nos cotovelos, e fiz impulso para me sentar. Joguei as pernas pra fora da cama, e senti uma lágrima descendo quente, pelo meu rosto, e antes que eu pudesse controlar, mais uma, e ainda outra. Quanto mais desesperada eu ficava por aquilo estar acontecendo, mas eu sentia meu rosto úmido, e menos conseguia me controlar. Fui até a cozinha, peguei um analgésico e o tomei com água gelada, eu queria que aquela dor parasse, debaixo das minhas costelas enquanto eu respirava acordada. Eu queria que aquilo fosse um sonho, mas não era nada disso, e eu precisava de um banho. Abri as portas do meu armário, uma por uma, e olhei. Nada. Fui até a mesa que comportava todas as roupas que tinham chegado limpas, e encontrei. Uma calça amarela bebê, larga e confortável. Quem sabe com uma calça amarela eu pareça um pouco mais alegre. Mas enquanto eu pensava nisso, as lágrimas continuavam insistindo em escorrer, e lembrei da voz da minha mãe. De como ela se preocupava. Como se preocuparia se estivesse aqui. E não sairia correndo, sem nem ao menos me dar bom dia. Me despi lentamente, e quando estava prestes a entrar debaixo do chuveiro, encarei-me no espelho. Era grande, eu podia ver meus quadris, meus seios e meu rosto todo molhado e vermelho. Senti raiva daquela pessoa ali, me encarando, sem fazer nada. Me deixando chorar, lágrima após a outra, por ter acordado. Tentei sorrir, mas a pessoa me sorriu de volta com má vontade, um sorriso torto e triste, como alguém que não sabe muito bem como fazer isso. Balancei a cabeça e entrei no chuveiro. Senti a água quente, fiquei parada por muito tempo. Eu queria ficar ali, deitada, embaixo daquela água até que cada pedacinho do meu corpo derretesse e escorresse pra dentro do ralo.