terça-feira, 30 de novembro de 2010
Eu estou bem aqui
Bem aqui, com meus celulares desligados, as janelas fechadas e meus soluços. Pensando no passado, ou o que sobrou dele em minha memória despedaçada. Nos dias em que eu pensava que nada podia ficar pior. Quando eu dormia chorando. Pelo dia ruim. Agora, as minhas manhãs são em prantos. Talvez pela plena certeza: as coisas podem piorar. E os dias normalmente são ruins.
When your gone
Você não conta os amigos que faz a cada dia. Você conta os que se vão a cada dia, e se pergunta, 'que diabos tenho feito de tão ruim?'
Não vou nada bem.
Eu não conseguiria dizer a você qual é a sensação dos pesadelos todas as noites. Não é o calor. No inverno eles continuam lá. Eu continuo rolando na cama. Eu continuo acordando nervosa. Deixo lágrimas escaparem a cada manhã. É inútil passar as mãos pelas bochechas e respirar fundo. Então só me sento na cama com os pés no ar e espero até que elas se cansem. É isso que se faz quando você mesmo se cansou.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Acordei, mas mantive meus olhos fechados. Eu queria continuar ali, adormecida. Até mais tarde, até amanhã, ou até o mês que vem. Movi meu corpo lentamente, e senti uma dor aguda percorrer-me, por todo o corpo. Respirei fundo, mas isso só fez com que minhas costelas doessem, e até por baixo delas. Apertei os olhos, e os abri. Mas que raio de dor é essa? Que raio de claridade e de dia é esse? Estiquei meu braço com dificuldade, pegando a água, colocando um pouco na minha boca, e puxei a cortina, tampando o sol. Mas me mantive deitada. Tentei não me movimentar, tentei respirar bem pouquinho, pra que não doesse. Respirar dói. Ter que acordar e encarar esse dia. Dói igualmente. Com a ponta dos dedos, peguei o celular, disquei. Uma briga. Gritei. Meu peito doía horrivelmente.Rolo meu corpo na cama, abro um livro, e leio, até o último minuto. A essa hora, eu já devia estar mesmo pronta pra sair de casa. Apóio meu cotovelos, e tento me concentrar, como se ele estivesse ali me acordando com palavras doces. Me lembrei que tínhamos brigado há alguns minutos atrás, no telefone. Apoiei nos cotovelos, e fiz impulso para me sentar. Joguei as pernas pra fora da cama, e senti uma lágrima descendo quente, pelo meu rosto, e antes que eu pudesse controlar, mais uma, e ainda outra. Quanto mais desesperada eu ficava por aquilo estar acontecendo, mas eu sentia meu rosto úmido, e menos conseguia me controlar. Fui até a cozinha, peguei um analgésico e o tomei com água gelada, eu queria que aquela dor parasse, debaixo das minhas costelas enquanto eu respirava acordada. Eu queria que aquilo fosse um sonho, mas não era nada disso, e eu precisava de um banho. Abri as portas do meu armário, uma por uma, e olhei. Nada. Fui até a mesa que comportava todas as roupas que tinham chegado limpas, e encontrei. Uma calça amarela bebê, larga e confortável. Quem sabe com uma calça amarela eu pareça um pouco mais alegre. Mas enquanto eu pensava nisso, as lágrimas continuavam insistindo em escorrer, e lembrei da voz da minha mãe. De como ela se preocupava. Como se preocuparia se estivesse aqui. E não sairia correndo, sem nem ao menos me dar bom dia. Me despi lentamente, e quando estava prestes a entrar debaixo do chuveiro, encarei-me no espelho. Era grande, eu podia ver meus quadris, meus seios e meu rosto todo molhado e vermelho. Senti raiva daquela pessoa ali, me encarando, sem fazer nada. Me deixando chorar, lágrima após a outra, por ter acordado. Tentei sorrir, mas a pessoa me sorriu de volta com má vontade, um sorriso torto e triste, como alguém que não sabe muito bem como fazer isso. Balancei a cabeça e entrei no chuveiro. Senti a água quente, fiquei parada por muito tempo. Eu queria ficar ali, deitada, embaixo daquela água até que cada pedacinho do meu corpo derretesse e escorresse pra dentro do ralo.
Nós nos enroscamos um no outro, mas o frio da neve perdura; nossas mãos e pés são feitos de gelo. Entrelaçamos as pernas para nos aquecer. Ele me esfrega, me afaga. Torna a me envolver em seus braços. Sinto seu pau ficar duro. Isso me faz rir. Ele também ri, mas um riso nervoso, como se eu estivesse rindo dele.
-Você me quer? - pergunto.
Ele sorri.
-Eu sempre te quero.
Antes de Morrer - Jenny Downham
quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tiro um biscoito do pacote. Ele tem o formato de uma bengala, mas isso não me anima nem um pouco. Aliás, tudo tem sido bem desinteressante. Eu voltei a vir às aulas, e as pessoas parecem estar quase genuinamente preocupadas com minha longa ausência. Ma sé algo bem sutil, como se fizessem isso só pra se livrarem da minha imagem pálida de olhos fundos. É claro que há algo errado. E é claro que eu não vou contar à ninguém. Minha amiga coloca a mão no meu pacote e retira um dos meus biscoitos. Entrego a ela toda a embalagem e peço que coma. Afinal, não como mesmo com satisfação. Só mesmo pra me manter viva. Não que eu queira tanto assim viver. É que a morte deve doer, e de dor, já estou farta. Reviro meus olhos, penso em pegar um livro, mas não. Fico pensando se já não se excede o fim das aulas, mas parece que dez minutos se arrastam como um verme. Eu quero ir pra casa e ficar sozinha.
Às vezes tenho medo das pessoas. Tive medo ao descer da condução e pensar na faculdade, em como todos olhariam pra mim com pena, curiosidade ou indiferença. É como se eu fosse algo raro. É difícil que alguém se aproxime. Mas há uma curiosidade mórbida, como se quisessem botar os olhos em minha privacidade e saber das minhas merdas. Porque todos sabem que há algo errado, é só reparar como ando olhando o chão, arrastando os pés e sorrindo de lado. Mas a minha maior satisfação é garantir que nenhum deles saiba das minhas merdas. Por mais que se empenhem em mostrar interesse. - Fiquem longe, sou estranha.

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